Como complicar o tráfego: dicas práticas

A reflexão sobre as técnicas para causar congestionamentos nas cidades brasileiras com eficiência suíça, ao contrário, vem ganhando espaço. Tudo isso em conformidade com o sagrado princípio da política municipal:

– Se o eleitor pede lombada, lombada haverá.

Fiscalização, educação e engenharia de tráfego? Isso é considerado muito neoliberal.

Um lembrete básico que geralmente é ignorado pelos prefeitos com orgulho:

Vazão = velocidade X área.

Por que se preocupar com a física quando é mais fácil inaugurar concreto?

1) Lombadas (a religião oficial)

Instale lombadas nas vias principais, preferencialmente logo após os cruzamentos. Dessa forma:

Aqueles que vêm pela via principal freiam sem necessidade

Os motoristas que vêm da via secundária não sabem se devem parar, acelerar ou rezar

Todos acabam perdendo tempo, combustível e sanidade mental

É importante mencionar que testes realizados em laboratórios de emissões veiculares mostram que o maior consumo de combustível e consequente emissão de poluentes ocorre quando o trânsito está parado e em movimento constante.

Fiscalizar a velocidade demanda esforço, enquanto a lombada garante votos sólidos.

2) Faixas de pedestres (o caos democrático)

Deve-se pintar faixas de pedestres:

Em todos os cruzamentos

Em todas as esquinas

Em locais com pouca visibilidade

Se o semáforo está verde, o problema é do motorista.

Na hora de fazer uma conversão à direita, uma surpresa! Um pedestre surge do nada.

Uma faixa no meio da avenida, com um canteiro central? Ótimo. Os pedestres provavelmente não utilizavam antes, mas agora vão usar.

3) Placas de PARE estrategicamente posicionadas

É sempre importante dar preferência à rua que é:

Mais estreita

Mais lenta

Com menos fluxo de veículos

Realizar estudos de tráfego é considerado elitista. A intuição política é uma ciência exata.

4) Estacionamento livre, leve e solto

Se uma avenida possui duas faixas, transforme em apenas uma.

Se uma rua é estreita, permita o estacionamento dos dois lados.

O importante é garantir que ambulâncias e ônibus nunca consigam passar. Comércio feliz, cidade parada.

5) Retornos infinitos

Permita realizar retornos:

Em todas as ilhas

Em todas as avenidas movimentadas

Sem recuo, sem sinalização e sem piedade

Nada causa mais congestionamento do que um carro parado tentando realizar uma conversão rápida.

6) Faixas que desaparecem magicamente

Se uma avenida possui três faixas, faça parecer que são apenas duas. Do nada!

Sem placas, sem avisos, sem constrangimentos.

O motorista aprende na prática. Ou talvez não aprenda.

7) Eliminação das rotatórias (crime urbanístico qualificado)

Se o tráfego está fluindo em uma rotatória, então algo está errado.

Troque as rotatórias por:

Semáforos

Com três tempos; Intermináveis! Que param o trânsito mesmo quando não há ninguém passando, já que um trânsito parado transmite a sensação de “controle”.

Concluindo:

O trânsito não precisa necessariamente fluir. Ele só precisa aparentar ser humano, mesmo que de forma burra. Enquanto lombadas são inauguradas, a fiscalização continua sendo negligenciada. A lombada aparece nas fotos, a multa gera reclamações. O congestionamento é apenas o custo do populismo viário.

Se a cidade ficar travada, melhor ainda: os eleitores acharão que a cidade está crescendo.

E os prefeitos? Continuam firmes, cortando fitas… em cima das lombadas.

OBS: Autor: Eduardo Fangel, graduado pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo e responsável pelo Traffic Safety no Campo de Provas da General Motors, em Indaiatuba, SP.

By Motor Extremo

Related Posts