Volkswagen planeja cortar até 100 mil empregos em reestruturação global

A unidade brasileira da Volkswagen não deverá ser diretamente afetada pelas mudanças propostas, uma vez que os investimentos no país representam apenas 2% do total da montadora. Mesmo assim, a filial brasileira teve um desempenho positivo, com receitas de R$ 7 bilhões somente na área de serviços financeiros em 2024.

CRÉDITO – Imagem gerada por IA com licença para uso editorial
LEGENDA – O CEO da Volkswagen, Oliver Blume, durante visita a uma instalação desativada da empresa: o grupo anunciou ontem que as 30 mil demissões previstas até 2030 não são suficientes e que até 100 mil vagas – quase 15% do total de 666 mil empregados globalmente – podem ser eliminadas apenas na Alemanha. Nos últimos cinco anos, a valorização de mercado da VW caiu de US$ 184,4 bilhões (aproximadamente R$ 950 bilhões) para US$ 40 bilhões (R$ 205 bilhões), resultando em uma perda de cerca de 80%. Hoje, a Volkswagen e suas doze marcas, que incluem Audi, Porsche, Skoda, Seat, Lamborghini e Bentley, valem menos que a Ambev, gigante do setor de bebidas.

Ontem, o Grupo Volkswagen comunicou ao conselho de trabalhadores alemão que as demissões já acertadas para os próximos anos não serão suficientes para garantir a continuidade dos negócios. Assim sendo, estima-se que até 100 mil empregos possam ser cortados apenas na Alemanha, onde o fechamento das fábricas em Hanover, Zwickau, Emden e Neckarsulm (Audi) pode resultar na perda de um terço do seu quadro. As informações eram sigilosas e foram obtidas pela Agência Reuters; a Volkswagen não negou os rumores sobre o que se configura como uma das maiores reestruturações já vistas no setor automotivo. Este movimento supera os cortes realizados pela General Motors nos anos 90 e durante sua declaração de falência em 2009.

“Há necessidade urgente de mudanças profundas dentro do grupo”, afirmou Oliver Blume. O CEO defende a separação da marca principal das operações relacionadas à fabricação de autopeças. Ele também mencionou a necessidade de apoio para novos cortes devido à resistência esperada dos sindicatos e do governo da Baixa Saxônia, segundo maior acionista da empresa. Além disso, Blume propôs reduzir os investimentos planejados para os próximos cinco anos em 15%, totalizando cerca de 130 bilhões de euros (R$ 760 bilhões). As ações da Volkswagen fecharam em queda de quase 3,5% na última sexta-feira (27 de junho), atingindo o menor patamar dos últimos dezesseis anos. Isso reflete a desconfiança dos investidores quanto à eficácia dessa reestruturação.

Embora o “facão” das demissões não tenha um impacto imediato no Brasil, onde está previsto um investimento de R$ 16 bilhões até 2028, essa quantia é ínfima comparada ao total global da Volkswagen. A matriz depende cada vez mais das remessas enviadas pelos lucros brasileiros; em serviços financeiros no país, por exemplo, a receita foi quase R$ 7 bilhões conforme relatório anual da montadora para este ano. No entanto, é importante lembrar que em 2023 a VW fechou sua fábrica na Rússia e no final deste ano vendeu seu banco local. A Audi também encerrou sua operação na Bélgica em fevereiro de 2025 e o plano para uma fábrica na Turquia nunca se concretizou — atribuída essa falha à pandemia.

“Culpa” é da China


O analista Matthias Schmidt comentou sobre a situação atual da Volkswagen afirmando que “estamos presenciando a realidade impactar essa gigante alemã”. Ele ressaltou que montadoras tradicionais estão perdendo terreno para fabricantes chineses de veículos elétricos (EVs), cuja participação no mercado caiu drasticamente — passando de quase 60% em 2020 para pouco acima de 30% no ano passado. A VW já foi líder nas vendas na China por muitos anos, mas foi superada pela BYD em termos de volume em vendas em abril deste ano e caiu para a terceira posição no último ano. O cenário tende a piorar com novos concorrentes chineses expandindo suas operações no Velho Continente.

No Brasil, onde foi inaugurada sua primeira grande fábrica fora da Alemanha em1959 e acumulou uma produção superior a25 milhões veículos até hoje,não há motivos imediatos para pânico— pelo menos por enquanto. Timothy Rooks destaca que apesar da América do Sul representar cerca de10% das vendas totais do grupo,a VW é bastante dependente do mercado brasileiro. Os modelos têm boa aceitação entre os consumidores locais e continuam apresentando bons resultados nas vendas. Entretanto,Rooks alerta que essa situação oferece um certo tempo à empresa; ainda assim,o tamanho do mercado brasileiro pode não ser suficiente para compensar as perdas enfrentadas em outras regiões.

Os últimos acontecimentos têm gerado apreensão entre fornecedores que se questionam sobre os efeitos potenciais da reestruturação nos seus próprios negócios. Paul Schockmel, CEO da IEE — fornecedora global especializada em sensores automotivos — enfatizou que decisões desse tipo impactam toda a cadeia produtiva. Ele sugere que os empresários brasileiros devem se preparar para possíveis consequências negativas devido à possível descontinuação de modelos ou reorganizações operacionais que podem levar à pressão sobre preços e ajustes na capacidade produtiva.

A situação atual enfrenta comparações com momentos críticos enfrentados por empresas icônicas como Atari — pioneira dos consoles; Kodak — influente no setor fotográfico; Nokia — prejudicada pela chegada dos smartphones; Yahoo! — subestimou o potencial publicitário; Xerox — inovadora nos computadores pessoais; além da Sears — uma gigante varejista histórica. Para aqueles céticos quanto ao futuro da VW vale lembrar que quando Lehman Brothers declarou falência em setembro de2008,a companhia possuía ativos superiores a US$690 bilhões (R$3 trilhões), número significativamente maior doque o valor atualde mercadodaVolkswagen.

By Motor Extremo

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